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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Via "Clandestino" - Serra da Cambota MG

Via Clandestino - 180mts - 6º VIIa E3 D1

Local: Serra da Cambota - Barão de Cocais MG


No último dia 28/01 tive o prazer de reviver boas aventuras no clássico Cambotas. Me juntei ao Fred Moreira e fomos num bate volta tentar o cume pela rota mais repetida do local: Via Clandestino.

Desde minhas primeiras idas ao Cambotas, sempre houve essa ideia em mente: experimentar essa via linda que corta o maciço bem pelo meio, remando mundo a fora naquele mar de quartzito laranja. Quem não qué, José??

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Via Clandestino - Cambotas MG

Relato da escalada:

Domingão acordei as 5, encontrei com o Morão no BH shopping as 6 e rachamos fora.. indo por Sabará, Caeté.. estrada de terra e.. Cambotas! Fomos muito bem recebidos pelo pessoal do Canela de Ema e começamos logo a trilha. (obs.: quem quer escalar no cambotas e não conhece o local, veja o post com todos os betas de lá: http://pedrasgerais.blogspot.com.br/2015/06/via-quadrado-magico-serra-do-cambotas-mg.html)

A trilha estava muito boa, aberta e com a vegetação intensa devido ao período chuvoso. O tempo nublado estava cooperando bastante e ir só com o equipamento de ataque ao cume ajudou a caminhada ser bem rápida. Menos de 40 min estávamos na base da via, 9:15h começamos a escalada.

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Fred e eu na trilha. 40 min até a base

A via são 5 ou 6 enfiadas, a última dependendo do ânimo pode ser emendada com a 5ª. São necessárias 13 costuras longas (beta importante: leve pelo menos duas de 1 metro, umas 3 menores pode até ser, e o resto de 40cm pra mais. Escalar a via só com costuras curtas seria bem ruim). Uns 2 ou 3 friends médios é bem recomendado pra 5ª e 6ª enfiada.
Seria possível escalar somente com uma corda de 60, porém, o rapel pela via de descida (ecdemomania) necessita duas cordas de 60mts. Então... leve-as... rapelar pela Clandestino é fácil somente até a segunda enfiada. De lá pra cima a via faz uma diagonal na 3ª e depois um negativo na 4ª.. ou seja, rapel ali é roubada.

Fora isso é uma mythos no pé, capacete, água, paçoquinha e uma proteção pro sol.. Pois uma regra no Cambotas não falha: o sol depois do meio dia arregaça o peão.

Encontrar a base da via é fácil. A partir do setor principal da entrada, caminhe 100 metros em direção ao setor felinas e a base já é lá. Olhando pra cima estará o inicio do risco do "A" do Arco da Santa Vitamina. A cor da parede no local é bem cinza, e não laranja.

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Primeira enfiada da via Clandestino - Cambotas MG

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Primeira parada da via Clandestino. O Fred está lá no fundo da foto pois errou a primeira parada.. acabou indo muito pra direita.

A primeira enfiada é um 6 grau. Vertical, alguns lances em agarras menores mas nada muito exigente. Bem bacana. A parada é num platô enorme inconfundível; ela estará mais a esquerda.
A segunda enfiada é a melhor da via! Um 6º grau num vertical laranjadão, bem protegido. Esta enfiada tende um pouco pra direita e termina bem na quina do "A" do arco.

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Fred vindo pela segunda enfiada da via

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Fred se juntando a mim na 2ª parada da via Clandestino.
Dali segue a 3ª parte da via. Aquilo lá já não é uma escalada que se acha facilmente por aí. A via segue na diagonal à esquerda, subindo na laje do teto acima da parada e seguindo um tubo de pedra de cerca de 1 metro de largura por 60 cm de profundidade. Ele não é grande o suficiente pra te caber dentro dele bem posicionado. Daí você fica meio fora e meio dentro, indo numa movimentação lateral utilizando a borda de baixo e desviando a cabeça da borda de cima. É bem diferente. Bem interessante. Essa enfiada desde os primeiros lances já requer uma tranquilidade mental bem maior.

O fim desta etapa é num platô enorme. Bom pra comer, beber água e recuperar o fôlego se necessário. Dali começa a enfiada com o crux de resista de força. O início é uma travessia lateral longa (+-12m), até virar atrás da aresta à esquerda. Antes de virar a aresta dá pra costurar duas chapas, e na outra face a via segue verticalmente, aí que dá a merda se você não tiver colocado uma fita gigante na primeira chapa e não tiver mais uma pra colocar na 3ª proteção. Coloquei uma fita de 40cm na 3ª e uma de 1,2m na 1ª... deu arraste pra cacete por causa da fita curta na 3ª... foi muito agachamento pra terminar o mar de agarrão no levemente negativo. O crux é uma seção bem definida no primeiro negativo. As agarras são boas, a questão é realmente manter a calma e ir movimentando bem ao longo dos agarrões.. vários parecem que vão arrancar na mão. Vá com calma.

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Eu na 4ª parada enquanto o Fred ia trabalhando o crux.

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Eu na 4ª parada com a cara toda suja de terra.. o arraste da corda me atrapalhou muito nesta guiada.

Dali pra frente, a 5ª e 6ª parte já são um estilo aproximação final com mato e alguns lances de escalada que é recomendável proteger com friends.

O cume estava bonito pra caramba..vista da Serra da Piedade e da serra do Caraça. Era a última folha do livro de cume... foi legal ver assinaturas antigas. O Fred tinha várias. Eu encontrei a minha de 2015 com meus parceiros Tigrão e Pastor, pela Aresta. Êta vida boa!

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Cume do Cambotas! Rurul!

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Assinando o livro de cume. Última página! Sorte.

De lá seguimos pro ponto de rapel. Pra achar o ponto de descida, faça o seguinte: ficando em pé no cume, olhando de frente pra sede do cambotas, siga pra sua diagonal direita pra frente (nordeste). Cerca de 200 metros abaixo, a parada estará lá, marcada com fita reflexiva e tudo mais, duas chapas com argolas.

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Descendo pro ponto de rapel.

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Ponto de rapel do cume principal do Cambotas


Um rapel de 30 metros te leva na base de uma grande fenda. A partir de lá, 2 rapéis de 60 metros te levarão até a base.

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Descendooo




Valeu Fred, valeu Cambotas. 

domingo, 11 de junho de 2017

Mallos de Riglos - Catalunha, Espanha

Mallos de Riglos - Catalunha - Espanha

Via: Fiesta de Los Bíceps - 240mts, 7B(br), D2                                       1/11/2016



Mallos de Riglos é um povoado catalão famoso por seus paredões de conglomerado. O conjunto de afloramento rochoso proporciona um visual único ao local, o qual é muito frequentado por turistas que buscam boas caminhadas, escaladas e também observação de aves.


Vista da estrada, logo na entrada do lugarejo. (em vermelho a linha da via "Fiesta de los Biceps")

A fama internacional deste pico de escalada, e especialmente da via "Fiesta de los Biceps", vem crescendo muito nos últimos anos. Feitos como o de Alex Honnold - o qual solou a via à vista - e a campanha "The Classics" da Mammut, a qual insere esta escalada no seu roteiro, ajudaram na divulgação do local.

Acesso e Hospedagem


O acesso ao povoado é muito tranquilo. São 315km a partir de Barcelona e a estrada é ótima. É interessante incluir Rodellar no roteiro, pois dista de Riglos apenas 1h 30m.
Há basicamente duas opções de hospedagem, situadas logo na entrada da vila. Uma é o hostel dos montanhistas e a outra a Hospedaria do José. Me hospedei por 20Euros/pessoa na segunda opção, incluindo um café da manhã básico. O quarto e banheiro eram muito bons, assim como o atendimento, coisa rara que encontrei poucas vezes na Espanha.

Vista da hospedaria do José
Há uma pequena mercearia na vila, a qual fornece itens básicos.

Escalada

O interessante de fazer a Fiesta de Los Biceps é que não é necessário muita pesquisa, informações ou croquis... A linha da via está totalmente marcada pela trilha de magnésio marcada na pedra, é possível ver do vilarejo a linha da via.

As paradas e proteções da via são óbvias e em ótimo estado. Há sempre uma primeira chapa bem perto de cada parada, o que elimina o fator 2, e os esticões são tranquilos. Bastam 14 costuras, umas longas de preferência, 2 paradas, uma corda de 50 metros (e 1 par de bíceps em dia).

São cerca de 15 minutos de caminhada entre a vila e a base, como eu disse antes, basta seguir o rastro de magnésio. A Base da via é um diedro fácil de identificar, o nome da via está escrito de branco num bloco a uns 5 metros de altura. É interessante chegar cedo, por volta das 8h no máximo, pois a via é concorrida. Cheguei nesse horário, e 15 minutos depois já começaram a chegar outras duplas, as quais acabaram optando por fazer outras vias.

Tata e eu na base da via "Fiesta de los Biceps"

Era 1º de novembro, o sol batia na via desde a primeira hora do dia até a última, o que foi bom, pois o frio de manhã era foda. Ao longo do dia o sol desgasta bastante, não rola de esquecer o filtro solar, blusa de manga cumprida e evitar escalar no período mais quente do dia.

Não é necessário muita água ou comida, a Tamires e eu gastamos cerca de 6 horas entre a saída e o retorno à vila. Isto é considerado um tempo lento para a empreitada.. nosso ritmo de escalada não é muito rápido e ainda ficamos perdidos por um tempo na trilha de descida.

A primeira enfiada foi guiada pela Tamires. O começo é muito sossegado, seguindo pelo diedro, é um 6º (BR) bem protegido. Há uns dois lances um pouco mais complicados, não requer muita força, é mais uma questão de posicionamento.

O ponto rosa na ponta da corda é a Tamires guiando a primeira enfiada.

A segunda enfiada é o 1º 7b (BR). O crux é um diedro de uns 5 metros de comprimento, onde estão disponíveis apenas regletes e pequenos conglomerados muito polidos (muito polidos mesmo, liso igual uma bola de sinuca). Esta foi a primeira enfiada que eu guiei, nem quis ficar me enrolando muito nos regletes ensebados.. dei uma roubadinha na costura e vamo-se-embora!

Eu na 2ª parada.

A partir da terceira enfiada, a via vai ficando mais vertical e depois negativa, os lances vão deixando de ser técnicos e os conglomerados começam a ficar bem maiores, só agarra boa praticamente. As proteções continuam muito boas ao longo de todo caminho. Pra quem tem facilidade em remadas longas entre agarras boas, a via vai ficando cada vez melhor.

4ª parada da via. Veja que outras duplas escalam bem próximas, há varias vias em cada face das torres.

Continuamos revezando a ponta da corda e evoluímos sem problemas na 3ª e 4ª parte da via. A 5ª era um 7a (BR) com muitos lances negativos. Foi um desafio muito bom pra Tata, ela deu raça pra caralho e foi vencendo todos os lances. Depois dela foi minha vez de pegar a parte mais negativa da via: as agarras são praticamente todas grandes e boas, é só manter a tranquilidade pra não gastar força atoa.. remando e respirando.

Tamires iniciando a guiada da 5ª parte da via. Um sétimo grau negativo muito bacana. No céu da pra ver uma das aves que que habitam o local.


Tamires na 5ª parada da via. Na parte superior da foto, aquela calça preta na ponta da corda sou eu remando e tentando ficar tranquilo.
Tamires curtindo o visual da via na 5ª parada.

A última enfiada é a mais tranquila. O vento no topo dificulta bastante a comunicação. Mas vai indo e tudo se arranja. A trilha para descer faz um contorno aberto sentido anti-horário por trás dos picos. Eu fiz o favor de errar de forma bizonha, acabei fazendo uma curva fechada num dado momento e fui parar numa canaleta entre dois picos.. nada de mais também... No fim serviu só pra aumentar bastante nossa fome e sede e mais tarde rirmos bastante da minha cabeça dura.

Tata e eu no cume!


Acho essa foto engraçada pq traduz bem nosso alivio no fim da trilha depois da minha errada de caminho bizarra.


Comemorar o cume!!




quarta-feira, 27 de abril de 2016

Três Picos - Salinas

Parque Estadual dos Três Picos

Nova Friburgo (Salinas) - RJ




Introdução


No feriado de Tiradentes de 2016, formamos uma bela turma de escaladores mineiros (17 ao todo) e partimos para o abrigo do lendário Sérgio Tartari, localizado ao pés dos Três Picos, no distrito de Salinas-RJ.


Turma quase completa, reunida com o Sergio Tartari.
A região é um dos principais pólos de escalada tradicional do Brasil. Oferece centenas de vias clássicas variando de 150 a mais 700 metros, num granito de muita qualidade. Além da escalada, o parque estadual oferece vários outros atrativos como trilhas e cachoeiras. O local é perfeito para passar uma boa temporada, pois, além das inúmeras vias, o ambiente dos abrigos de escaladores é sensacional, com direito a cerveja artesanal e rodizio de pizza, além do visual sem igual. Não há sinal de celular e a imersão no mundo de aventuras e curtição é total.


Um dos vários visuais incríveis da região

Nesse feriado, fui desfalcado da minha linda parceira de climb - Tamires Vargas - a qual teve que trabalhar; no entanto, numa turma tão grande como a nossa, não faltaram oportunidades de parcerias incríveis para aventuras memoráveis nesse lugar mágico. Ao longo do feriado tive a oportunidade de escalar duas vias clássicas da região: Sólidas Ilusões no Capacete, e a via Sol Celeste, no Pontão do Sol (pico secundário anexo ao pico maior). Foram duas empreitadas fantasticas, as quais serão descritas no detalhe logo abaixo.

ESCALADA NO CAPACETE

Via Sólidas Ilusões - 450mts - D3 5º V (A0/VI+) E3


Para minha primeira escalada em Salinas, me juntei ao bonde do Cae, Breno e Coxinha e formamos duas cordadas. Estudando o guia, de autoria do próprio Sergio Tartari, optamos por escalar a via Sólidas Ilusões. A descrição era bem chamativa: "excelente escalada, variada e constante. É uma das mais bonitas escaladas do Capacete". Confirmamos que esta afirmação não mentia em nada! Não é uma rota tão famosa como a CERJ, provavelmente devido a maior exposição e a necessidade das proteções móveis, no entanto, quem teve a oportunidade de escalar as duas, disse ser a Sólidas Ilusões consideravelmente mais interessante.

O guia do Tartari é a referência básica pra qualquer escalador que queira se aventurar pelos Três Picos e região.

O material necessário para uma cordada fazer a Solidas ilusões é uma corda de 60 (rapelando depois pela Rodolfo Chermont ou Sergio Jacob), 10 a 12 costuras e um jogo de friends (nuts também são úteis).

Preparamos as mochilas e o rango de pedra na noite anterior, acordamos às 5:30 e logo partimos para o climb. Em feriados é importante acordar bem cedo para evitar congestionamentos de escaladores nas vias, principalmente se o objetivo for a Face Leste ou a CERJ, as quais são muito frequentadas.

Do abrigo do Tartari, seguimos de carro por cerca de 15 minutos até o abrigo do Mascarim, ponto mais próximo possível de se chegar de carro. A partir de lá, seguimos caminhando para dentro do parque. A trilha não é muito pesada. Gasta-se cerca 40 minutos até a base da via. A saída da trilha principal para entrar no costão de aproximação não é óbiva, deve-se passar cerca de 200 metros da entrada da CERJ (a qual é sinalizada por placa) e então entrar por uma clareira na mata a esquerda, onde apesar do mato alto, é possível ver uma abertura por entre a mata fechada. Após um pequeno trecho andando no mato pouco marcado a trilha volta a ficar levemente batida.

Momento onde deve-se abandonar a trilha principal e seguir em direção à base da pedra para iniciar a via Sólidas Ilusões.

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1ª enfiada da Sólidas ilusões. Adicionei na foto
 três referencias indicadadas no croqui.
A trilha chega na base da via Roberta Groba, a partir daí, segue para a esquerda uns 50 metros beirando a base e chega-se à base da Sólidas ilusões. No meio desses 50 metros tem uma clareira só pra confundir. É bem obvio a visualização das duas fendas paralelas indicadas no croqui, não tem como errar.

A primeira enfiada é bem bacana, com proteções móveis no início e fixas no final. A exposição desta, e das demais, é característica de um E3 de Salinas. Isto é difícil de traduzir em palavras... mas seria algo do tipo: Escale sem se preocupar com grampos. A segunda enfiada é relativamente tranquila, e bem curta (cerca de 25 metros), porém, é bem diagonal, logo, qualquer tentativa de emendar enfiadas vai gerar bastante arraste na corda.

A terceira enfiada é mais complicada. É bem exposta até a primeira proteção, e segue por dois diedros com fenda numa escala incrível. Para entrar no primeiro diedro, o beta é encarar o pequeno trapa mato à esquerda, mesmo com o formigueiro. Quem guiava esta parte era o Cae, o qual preferiu contornar o trepa mato e acabou entrando numa liseba roubada. Este diedro não deve ser seguido até o final, o beta é virar pra cima dele abandonando a fenda logo na metade, onde há uns agarrões os quais chamam você para cima do diedro. Ao entrar na segunda fenda deve-se segui-la até o final, sendo que, na metade, onde há uma fratura no traçado, há um estreitamento que se torna o crux, principalmente pra quem tem dedos grossos. Essa enfiada é muito interessante.

Cae guiando a 3ª enfiada, uma das mais complicadas da via
Cae e Breno seguindo pela 4ª enfiada, guiada pelo Coxinha e por mim.
A partir daí, até P7, a escalada é muito prazerosa. Bastante agarras, lacas para proteção em móvel (final de P4, P5 e toda P6) e um visual incrível. P8 é um pouco mais exposta, principalmente o final.. é possível usar pequenos friends mas nada promissores.


Cae e Breno seguindo pela 6ª enfiada.
A nona enfiada é parecida com a terceira. Um longo diedro com fenda, bem vertical. Novamente deve-se abandonar a fenda onde os agarras te chamam pra fora da fenda. É uma virada de bolder V0 bem legal.

A ultima enfiada é o clássico rampão 3º grau com um grampo solitário, onde é só seguir o instinto e correr pro abraço, tentendo para a esquerda e chamando a galera "na francesa".

Chegada ao topo do Capacete pela via Sólidas Ilusões.

CUME

Um dos belos visuais do cume do Capacete
Para rapelar, o ideal é atravessar o maciço na direção do pico maior, seguindo os pequenos totens que indicam o topo da via Sergio Jacob (a Rodolfo Chermont é outra opção logo ao lado). Ali é possível rapelar de várias formas pois há paradas de 25 em 25 metros.

A empreitada como um todo, desde tirar o pé do chão na base e retornar à terra firme, durou 9 horas. Onde mais demoramos foi na terceira enfiada, devido a dúvida com relação ao traçado da via. Além disso, nosso grupo não apresentou um desenvolvimento rápido em linhas gerais. Apesar do tempo longo, o clima foi de total curtição num belo dia de sol entre nuvens perfeito pra escalada. A via é maravilhosa e bem variada: lances de fenda, aderência, regletes e diedros. Pouquíssimo trepa mato e um padrão de dificuldade bem constante. Recomendo a todos sem ressalvas!




ESCALADA NO PONTÃO DO SOL

Via Sol Celeste - 280 mts - D2 5º V+ E3


Para o segundo dia de escalada, entre tempo e contra-tempos, meus planos iniciais de fazer a CERJ foram alterados e acabei juntando-me à cordada do Breno Retes e Leo Santiago, onde o objetivo era fazer a via Sol Celeste, no Pontão do Sol (cume secundário anexado ao Pico Maior). Por sorte minha, no café da manhã encontrei a galera que havia  tentado o cume desta via no dia anterior, e me passaram alguns poucos betas, sendo um deles muito valioso: "A segunda enfiada era uma roubada!".


Trilha para a base do Pontão do Sol

A trilha de acesso é praticamente a mesma da famosa Face Leste. A diferença é que faltando uns 10 metros para a base da Leste, deve-se continuar direto pela trilha sem entrar no bambuzal de acesso ao Pico Maior, cerca de 100 metros a frente, o percurso torna-se uma escalaminhada em direção ao platô principal da base do Pontão do Sol, o qual é sinalizado no guia.

Inicio dos trepa pedras até chegar a base
A cerca de 20 metros da base da via nós suspeitamos da escalaminhada íngreme de acesso à base e fizemos um contorno pela esquerda visando alcançar o platô. Esta pequena alteração quase resultou numa tragédia, pois, o Leo e eu, sem percebermos, ficamos sapateando próx imos a uma urutu, a qual só foi percebida pelo Breno que vinha por último na fila.
Passado este susto inicial os outros sustos não demoraram a aparecer. Logo a saída da via já aparentava ser uma roubada exposta e de difícil leitura. O Leo pegou para guiar e após umas tentativas no rumo errado, acabou desistindo. Eu me candidatei de imediato, pois, esse era uma passaporte perfeito para evitar a segunda enfiada. Dei logo uma raça e guiei os lances de aderência bastante expostos, e assim, iniciamos o caminho ao cume.

O ponto branco à frente da corda sou eu, guiando a 1ª enfiada. A distancia da primeira proteção dá uma idéia do que é um E3 de Salinas.

Logo em seguida apareceu uma dupla de escaladores cariocas veteranos, os quais tinham muito mais informações sobre a via do que nossa cordada. Esse grupo guiou a primeira enfiada sem dificuldades, enquanto isso o Leo guiava o segundo esticão.

Esta segunda parte da via seguia a mesma inclinação do inicio, e logo depois, se tornava bem positiva ao longo de uns 10 metros. Em seguida, a inclinação aumentava e os grampos sumiam juntamente com as agarras. Tudo ficava liso e abaolado.

Leo (de azul) passando um veneno na 2ª enfiada. Os
outros 2 na foto são a cordada carioca.
O Leo ficou totalmente paralisado diante dos lances de difícil leitura e bastante expostos após a parte mais positiva. O carioca que guiava logo abaixo nos deu um beta vago da necessidades de pés altos. O Breno e eu ficávamos na angustia da expectativa enquanto nosso parceiro passava maus bocados tentando decifrar e criar coragem para vencer as bacias abaoladas adrenantes, onde estava em jogo uma queda ruim ao longo de um rampão de granito.

Após algumas titubeadas o Leo conseguiu vencer o primeiro crux, costurou uma proteção e logo uns metros a frente se deparou com outro crux até pior que o primeiro... haja pisico pra guiar esta enfiada a vista.. o tempo foi passando e o carioca chegou próximo ao nosso guia, passando assim mais alguns betas. Isso, somado ao fato de não haver outra saída, parece ter aumentado a moral ,pois, logo logo vimos o Leo mandando uns pés altos vencendo os lances técnicos até finalmente chegar aos grampos da 2ª parada.

Quando passei pelos lances, agradeci mil vezes por ter me livrado do perrengue de guiar esta segunda enfiada!


Breno trabalhando o crux de bacias abaoladas e pés altos.

O Breno pegou a ponta da corda na 3ª parte, a qual mostrou ser a mais tranquila de toda a via: escalada constante com bastante agarras e algumas proteções móveis no início.

Breno guiando a 3ª enfiada enquando o guia carioca trabalhava o perrengue da 4ª

A 4ª enfiada era minha vez de guiar novamente. A cordada carioca, a qual nos ultrapassou após P2, aparentava dificuldades nessa passagem. Isto me deixou bastante apreensivo, pois, nos lances difíceis de P1 e P2 eles haviam passado batido. Quando o guia fez a parada eu perguntei o que ele tinha a dizer sobre os lances. A resposta foi uma resmungada junto com: "é só vir com atenção"... uma clássica resposta evasiva, de toda forma, não havia muito a fazer por mim.
Comecei essa guiada bastante tenso, mas logo a parede ficou tão vertical e os lances tão delicados, que não me restou outra alternativa que ficar o mais calmo e frio possível. Foi uma escalada incrível, fui ganhando cada vez mais confiança a medida que vencia lances complicados. A escalada era bem variada, com oposições em lacas e proteções móveis; regletes minúsculos e até mesmo uma viradinha dum negativo leve após a última proteção antes da parada. Quando fiz a ancoragem abri um sorriso enorme e o sangue enfim correu leve. Infelizmente, não há registros fotográficos sobre esse momento.

Ao fim da 4ª parte, a cordada dos cariocas alegou cansaço e rapelaram rumo a base. A partir daí, seguimos somente os 3 rumo ao cume.


Breno iniciando a fenda da 5ª enfiada.

Logo após meu perrengue, foi a vez do Breno pegar uma enfiada complicada, fechando assim a cota de uma roubada por cabeça. A 5ª enfiada foi a mais interessante de nossa escalada. Praticamente toda em móvel numa fenda que se abria pela torre de pedra subindo rumo ao cume, fugindo do diedro de mato que se abria à esquerda. Este esticão era bastante vertical, com uma travessia inicial delicada seguido por lances variados em cristais e fendas os quais renderam muitas emoções mesmo indo de participante.


Leo (de laranja) e eu (de vermelho) terminando de vencer a fenda vertical da 5ª enfiada. Esta foto foi tirada por um grupo que escalava uma via próxima.


Chegamos na parada e o Breno estava em êxtase pela experiência de guiar esta parte tão incrível. O Leo pegou a última enfiada. Guiou por um diedro duns 10 metros e depois saiu pela tangente, seguindo pelo mar de agarras que nos levou finalmente até a última parada. Após esta parada, ainda havia uma escaladinha de uns 10 metros para finalmente pisar no famigerado cume. A alegria foi intensa ao alcançar o topo após passar tanto cagaço ao longo do dia. Foram várias emoções inesquecíveis nesse dia perfeito de climb! Valeu Branão e Leo!!


Cume!!!
Fim da trilha.. fim da aventura... Valeu Leo, Valeu Breno!!

O rapel foi tranquilo ao longo das 6 enfiadas. Depois seguimos em disparada rumo ao carro e ao abrigo, para enfim tomar uma cerva gelada contando e ouvindo os perrengues e aventuras de todos.



Autor do Relato: Gilberto MArtins Assunção Valadares da Silva