quarta-feira, 27 de abril de 2016

Três Picos - Salinas

Parque Estadual dos Três Picos

Nova Friburgo (Salinas) - RJ




Introdução


No feriado de Tiradentes de 2016, formamos uma bela turma de escaladores mineiros (17 ao todo) e partimos para o abrigo do lendário Sérgio Tartari, localizado ao pés dos Três Picos, no distrito de Salinas-RJ.


Turma quase completa, reunida com o Sergio Tartari.
A região é um dos principais pólos de escalada tradicional do Brasil. Oferece centenas de vias clássicas variando de 150 a mais 700 metros, num granito de muita qualidade. Além da escalada, o parque estadual oferece vários outros atrativos como trilhas e cachoeiras. O local é perfeito para passar uma boa temporada, pois, além das inúmeras vias, o ambiente dos abrigos de escaladores é sensacional, com direito a cerveja artesanal e rodizio de pizza, além do visual sem igual. Não há sinal de celular e a imersão no mundo de aventuras e curtição é total.


Um dos vários visuais incríveis da região

Nesse feriado, fui desfalcado da minha linda parceira de climb - Tamires Vargas - a qual teve que trabalhar; no entanto, numa turma tão grande como a nossa, não faltaram oportunidades de parcerias incríveis para aventuras memoráveis nesse lugar mágico. Ao longo do feriado tive a oportunidade de escalar duas vias clássicas da região: Sólidas Ilusões no Capacete, e a via Sol Celeste, no Pontão do Sol (pico secundário anexo ao pico maior). Foram duas empreitadas fantasticas, as quais serão descritas no detalhe logo abaixo.

ESCALADA NO CAPACETE

Via Sólidas Ilusões - 450mts - D3 5º V (A0/VI+) E3


Para minha primeira escalada em Salinas, me juntei ao bonde do Cae, Breno e Coxinha e formamos duas cordadas. Estudando o guia, de autoria do próprio Sergio Tartari, optamos por escalar a via Sólidas Ilusões. A descrição era bem chamativa: "excelente escalada, variada e constante. É uma das mais bonitas escaladas do Capacete". Confirmamos que esta afirmação não mentia em nada! Não é uma rota tão famosa como a CERJ, provavelmente devido a maior exposição e a necessidade das proteções móveis, no entanto, quem teve a oportunidade de escalar as duas, disse ser a Sólidas Ilusões consideravelmente mais interessante.

O guia do Tartari é a referência básica pra qualquer escalador que queira se aventurar pelos Três Picos e região.

O material necessário para uma cordada fazer a Solidas ilusões é uma corda de 60 (rapelando depois pela Rodolfo Chermont ou Sergio Jacob), 10 a 12 costuras e um jogo de friends (nuts também são úteis).

Preparamos as mochilas e o rango de pedra na noite anterior, acordamos às 5:30 e logo partimos para o climb. Em feriados é importante acordar bem cedo para evitar congestionamentos de escaladores nas vias, principalmente se o objetivo for a Face Leste ou a CERJ, as quais são muito frequentadas.

Do abrigo do Tartari, seguimos de carro por cerca de 15 minutos até o abrigo do Mascarim, ponto mais próximo possível de se chegar de carro. A partir de lá, seguimos caminhando para dentro do parque. A trilha não é muito pesada. Gasta-se cerca 40 minutos até a base da via. A saída da trilha principal para entrar no costão de aproximação não é óbiva, deve-se passar cerca de 200 metros da entrada da CERJ (a qual é sinalizada por placa) e então entrar por uma clareira na mata a esquerda, onde apesar do mato alto, é possível ver uma abertura por entre a mata fechada. Após um pequeno trecho andando no mato pouco marcado a trilha volta a ficar levemente batida.

Momento onde deve-se abandonar a trilha principal e seguir em direção à base da pedra para iniciar a via Sólidas Ilusões.

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1ª enfiada da Sólidas ilusões. Adicionei na foto
 três referencias indicadadas no croqui.
A trilha chega na base da via Roberta Groba, a partir daí, segue para a esquerda uns 50 metros beirando a base e chega-se à base da Sólidas ilusões. No meio desses 50 metros tem uma clareira só pra confundir. É bem obvio a visualização das duas fendas paralelas indicadas no croqui, não tem como errar.

A primeira enfiada é bem bacana, com proteções móveis no início e fixas no final. A exposição desta, e das demais, é característica de um E3 de Salinas. Isto é difícil de traduzir em palavras... mas seria algo do tipo: Escale sem se preocupar com grampos. A segunda enfiada é relativamente tranquila, e bem curta (cerca de 25 metros), porém, é bem diagonal, logo, qualquer tentativa de emendar enfiadas vai gerar bastante arraste na corda.

A terceira enfiada é mais complicada. É bem exposta até a primeira proteção, e segue por dois diedros com fenda numa escala incrível. Para entrar no primeiro diedro, o beta é encarar o pequeno trapa mato à esquerda, mesmo com o formigueiro. Quem guiava esta parte era o Cae, o qual preferiu contornar o trepa mato e acabou entrando numa liseba roubada. Este diedro não deve ser seguido até o final, o beta é virar pra cima dele abandonando a fenda logo na metade, onde há uns agarrões os quais chamam você para cima do diedro. Ao entrar na segunda fenda deve-se segui-la até o final, sendo que, na metade, onde há uma fratura no traçado, há um estreitamento que se torna o crux, principalmente pra quem tem dedos grossos. Essa enfiada é muito interessante.

Cae guiando a 3ª enfiada, uma das mais complicadas da via
Cae e Breno seguindo pela 4ª enfiada, guiada pelo Coxinha e por mim.
A partir daí, até P7, a escalada é muito prazerosa. Bastante agarras, lacas para proteção em móvel (final de P4, P5 e toda P6) e um visual incrível. P8 é um pouco mais exposta, principalmente o final.. é possível usar pequenos friends mas nada promissores.


Cae e Breno seguindo pela 6ª enfiada.
A nona enfiada é parecida com a terceira. Um longo diedro com fenda, bem vertical. Novamente deve-se abandonar a fenda onde os agarras te chamam pra fora da fenda. É uma virada de bolder V0 bem legal.

A ultima enfiada é o clássico rampão 3º grau com um grampo solitário, onde é só seguir o instinto e correr pro abraço, tentendo para a esquerda e chamando a galera "na francesa".

Chegada ao topo do Capacete pela via Sólidas Ilusões.

CUME

Um dos belos visuais do cume do Capacete
Para rapelar, o ideal é atravessar o maciço na direção do pico maior, seguindo os pequenos totens que indicam o topo da via Sergio Jacob (a Rodolfo Chermont é outra opção logo ao lado). Ali é possível rapelar de várias formas pois há paradas de 25 em 25 metros.

A empreitada como um todo, desde tirar o pé do chão na base e retornar à terra firme, durou 9 horas. Onde mais demoramos foi na terceira enfiada, devido a dúvida com relação ao traçado da via. Além disso, nosso grupo não apresentou um desenvolvimento rápido em linhas gerais. Apesar do tempo longo, o clima foi de total curtição num belo dia de sol entre nuvens perfeito pra escalada. A via é maravilhosa e bem variada: lances de fenda, aderência, regletes e diedros. Pouquíssimo trepa mato e um padrão de dificuldade bem constante. Recomendo a todos sem ressalvas!




ESCALADA NO PONTÃO DO SOL

Via Sol Celeste - 280 mts - D2 5º V+ E3


Para o segundo dia de escalada, entre tempo e contra-tempos, meus planos iniciais de fazer a CERJ foram alterados e acabei juntando-me à cordada do Breno Retes e Leo Santiago, onde o objetivo era fazer a via Sol Celeste, no Pontão do Sol (cume secundário anexado ao Pico Maior). Por sorte minha, no café da manhã encontrei a galera que havia  tentado o cume desta via no dia anterior, e me passaram alguns poucos betas, sendo um deles muito valioso: "A segunda enfiada era uma roubada!".


Trilha para a base do Pontão do Sol

A trilha de acesso é praticamente a mesma da famosa Face Leste. A diferença é que faltando uns 10 metros para a base da Leste, deve-se continuar direto pela trilha sem entrar no bambuzal de acesso ao Pico Maior, cerca de 100 metros a frente, o percurso torna-se uma escalaminhada em direção ao platô principal da base do Pontão do Sol, o qual é sinalizado no guia.

Inicio dos trepa pedras até chegar a base
A cerca de 20 metros da base da via nós suspeitamos da escalaminhada íngreme de acesso à base e fizemos um contorno pela esquerda visando alcançar o platô. Esta pequena alteração quase resultou numa tragédia, pois, o Leo e eu, sem percebermos, ficamos sapateando próx imos a uma urutu, a qual só foi percebida pelo Breno que vinha por último na fila.
Passado este susto inicial os outros sustos não demoraram a aparecer. Logo a saída da via já aparentava ser uma roubada exposta e de difícil leitura. O Leo pegou para guiar e após umas tentativas no rumo errado, acabou desistindo. Eu me candidatei de imediato, pois, esse era uma passaporte perfeito para evitar a segunda enfiada. Dei logo uma raça e guiei os lances de aderência bastante expostos, e assim, iniciamos o caminho ao cume.

O ponto branco à frente da corda sou eu, guiando a 1ª enfiada. A distancia da primeira proteção dá uma idéia do que é um E3 de Salinas.

Logo em seguida apareceu uma dupla de escaladores cariocas veteranos, os quais tinham muito mais informações sobre a via do que nossa cordada. Esse grupo guiou a primeira enfiada sem dificuldades, enquanto isso o Leo guiava o segundo esticão.

Esta segunda parte da via seguia a mesma inclinação do inicio, e logo depois, se tornava bem positiva ao longo de uns 10 metros. Em seguida, a inclinação aumentava e os grampos sumiam juntamente com as agarras. Tudo ficava liso e abaolado.

Leo (de azul) passando um veneno na 2ª enfiada. Os
outros 2 na foto são a cordada carioca.
O Leo ficou totalmente paralisado diante dos lances de difícil leitura e bastante expostos após a parte mais positiva. O carioca que guiava logo abaixo nos deu um beta vago da necessidades de pés altos. O Breno e eu ficávamos na angustia da expectativa enquanto nosso parceiro passava maus bocados tentando decifrar e criar coragem para vencer as bacias abaoladas adrenantes, onde estava em jogo uma queda ruim ao longo de um rampão de granito.

Após algumas titubeadas o Leo conseguiu vencer o primeiro crux, costurou uma proteção e logo uns metros a frente se deparou com outro crux até pior que o primeiro... haja pisico pra guiar esta enfiada a vista.. o tempo foi passando e o carioca chegou próximo ao nosso guia, passando assim mais alguns betas. Isso, somado ao fato de não haver outra saída, parece ter aumentado a moral ,pois, logo logo vimos o Leo mandando uns pés altos vencendo os lances técnicos até finalmente chegar aos grampos da 2ª parada.

Quando passei pelos lances, agradeci mil vezes por ter me livrado do perrengue de guiar esta segunda enfiada!


Breno trabalhando o crux de bacias abaoladas e pés altos.

O Breno pegou a ponta da corda na 3ª parte, a qual mostrou ser a mais tranquila de toda a via: escalada constante com bastante agarras e algumas proteções móveis no início.

Breno guiando a 3ª enfiada enquando o guia carioca trabalhava o perrengue da 4ª

A 4ª enfiada era minha vez de guiar novamente. A cordada carioca, a qual nos ultrapassou após P2, aparentava dificuldades nessa passagem. Isto me deixou bastante apreensivo, pois, nos lances difíceis de P1 e P2 eles haviam passado batido. Quando o guia fez a parada eu perguntei o que ele tinha a dizer sobre os lances. A resposta foi uma resmungada junto com: "é só vir com atenção"... uma clássica resposta evasiva, de toda forma, não havia muito a fazer por mim.
Comecei essa guiada bastante tenso, mas logo a parede ficou tão vertical e os lances tão delicados, que não me restou outra alternativa que ficar o mais calmo e frio possível. Foi uma escalada incrível, fui ganhando cada vez mais confiança a medida que vencia lances complicados. A escalada era bem variada, com oposições em lacas e proteções móveis; regletes minúsculos e até mesmo uma viradinha dum negativo leve após a última proteção antes da parada. Quando fiz a ancoragem abri um sorriso enorme e o sangue enfim correu leve. Infelizmente, não há registros fotográficos sobre esse momento.

Ao fim da 4ª parte, a cordada dos cariocas alegou cansaço e rapelaram rumo a base. A partir daí, seguimos somente os 3 rumo ao cume.


Breno iniciando a fenda da 5ª enfiada.

Logo após meu perrengue, foi a vez do Breno pegar uma enfiada complicada, fechando assim a cota de uma roubada por cabeça. A 5ª enfiada foi a mais interessante de nossa escalada. Praticamente toda em móvel numa fenda que se abria pela torre de pedra subindo rumo ao cume, fugindo do diedro de mato que se abria à esquerda. Este esticão era bastante vertical, com uma travessia inicial delicada seguido por lances variados em cristais e fendas os quais renderam muitas emoções mesmo indo de participante.


Leo (de laranja) e eu (de vermelho) terminando de vencer a fenda vertical da 5ª enfiada. Esta foto foi tirada por um grupo que escalava uma via próxima.


Chegamos na parada e o Breno estava em êxtase pela experiência de guiar esta parte tão incrível. O Leo pegou a última enfiada. Guiou por um diedro duns 10 metros e depois saiu pela tangente, seguindo pelo mar de agarras que nos levou finalmente até a última parada. Após esta parada, ainda havia uma escaladinha de uns 10 metros para finalmente pisar no famigerado cume. A alegria foi intensa ao alcançar o topo após passar tanto cagaço ao longo do dia. Foram várias emoções inesquecíveis nesse dia perfeito de climb! Valeu Branão e Leo!!


Cume!!!
Fim da trilha.. fim da aventura... Valeu Leo, Valeu Breno!!

O rapel foi tranquilo ao longo das 6 enfiadas. Depois seguimos em disparada rumo ao carro e ao abrigo, para enfim tomar uma cerva gelada contando e ouvindo os perrengues e aventuras de todos.



Autor do Relato: Gilberto MArtins Assunção Valadares da Silva




domingo, 22 de novembro de 2015

Pico do Baiano - Catas Altas MG

Pico do Baiano - Catas Altas MG

Relato sobre a escalada da Via Obra do Acaso 

4 de outubro de 2015

via obra do acaso


1 - Apresentação do local

O Pico do Baiano é um maciço de quartzito localizado no distrito dee Morro da Água Quente, pertencente a Catas Altas, próximo a Barão de Cocais.

O pico é um ícone classico do montanhismo mineiro, com investidas iniciadas em 1991. Possui 2016 metros de altitude com vias que chegam a 1000 metros. Para mais informações sobre a história do Pico do Baiano acesse:  http://www.montanha.bio.br/web_cem/apresenta_baiano.htm 

Foto com as principais linhas e trilhas de acesso ao Pico do Baiano. Crédito da foto:bemmaisvertical

2 - Início

Minha história com o Baiano começou em 2011. Eu escalava a menos de um ano  quando o Pablo Gonçalves me lançou o convite pra ir junto ao Cristiano e ele numa empreitada pela via Obra do Acaso.

Eu não tinha a menor ideia do que era o Pico do Baiano, mas, como o Pablo era quem estava me introduzindo ao mundo da escalada na rocha, e conhecia meu nível de experiencia, eu topei na hora.

Nenhum de nós três havia ido antes até o Baiano. O Pablo pegou informações sobre a trilha e a escalada com o tigrão. Pegamos um mapa da trilha além alguns croquis da via e fomos nós três, naquele esquema de ir direto do serviço numa sexta feira qualquer: enfrentar o transito e a viagem, encarar a trilha, bivacar na base, acordar cedo, escalar, rapelar, dormir, descer e vazar. O plano era este.


Iniciando a trilha . Por volta já de 1hora da 
manhã de um sábado.

Partes planas e tranquilas do inicio da trilha. 
A qual de repente se torna  extremamente
ingrime em vários pontos. E o bom é que 
as mochilas são pequenas e leves.
Ouvimos inúmeras vezes que a trilha era osso. E isso provou ser verdade logo na primeira meia hora de tilha. Chegamos até o ponto de estacionar o carro por volta de meia noite e meia. Começamos a trilha uma hora da manhã e rapidamente já nos encontrávamos perdidos no mato. Assim que acabaram os pontos de referência iniciais já nos perdemos. Reencontramos a trilha e continuamos nesse ciclo de nos perder e nos reencontrar por um bom tempo. Enfim chegamos já exaustos a um ponto de referencia marcante da trilha do Baiano: a barragem do riacho que nasce na montanha. Normalmente gasta-se cerca de uma hora e pouco pra chegar nesta barragem. Nós gastamos cerca de 3 horas. A partir deste ponto, o mapa de nossa trilha indicava "pirambeiras". Rapaiz, e que pirambeiras. Hoje por exemplo há cordas fixas nestes pontos que auxiliam muito a subida dessas partes muito íngremes de terra, quase verticais. Subi-las com a mochila pesada e volumosa parecia esses treinamentos do exercito. Era preciso realmente se arrastar certas vezes pra liberar os cipós emaranhados nas mochilas.

A partir deste ponto continuamos a nos perder em algumas ocasiões e já estávamos exaustos. Já estava próximo da hora de amanhecer e nem sinal da base da via. O mais frustrante era pensar que iríamos passar por todo aquele trampo e nem sequer iríamos ver a via. Pensar nisto era extremamente desanimador.

Chegando a um outro ponto de referencia, "a pequena caverna de pedra", desenhada no mapa da trilha, resolvemos deitar cerca de uma hora pra recuperar um pouco de energia e continuar tentando achar até a base da via.


Imagem do Pablo Gonçalves quando decidimos parar um pouco para descansar. Exaustos. Durante minhas outras investidas no Baiano descobri que este ponto é o utilizado para se dormir realmente, antes do dia da investida ao cume. Costuma-se gastar cerca de 3 horas até aí quando não se erra. Tínhamos gasto umas 5,5horas
Seguimos ainda por algumas horas extenuantes até finalmente encontrar a base da via Pedrita Meu Amor. Lá topamos com um outro grupo de escaladores que havia nos ultrapassado na trilha durante a noite e nem sequer os vimos. Eles nos disseram que a base da Obra do Acaso ainda era cerca de uns 40 minutos seguindo a trilha. Naquele momento já amanhecia. Seguimos por um tempo e enfim, lá pelas 7 e poco da manhã encontramos o primeiro grampo da obra do acaso. Eu já estava mais morto do que vivo após mais de 6 horas de caminhada difícil noite adentro e sem dormir nada. Era impossível começar a escalar naquele momento, e sabíamos que começando mais tarde, dificilmente atingiríamos o cume a tempo. Mas bem, havíamos pelo menos vencido a trilha do Baiano e iríamos escalar pelo menos um pouco, aquilo já era uma grande vitória. Resolvemos tentar descansar um pouco antes de entrar na via. 

Esta foto apresenta toda a floresta que foi percorrida durante uma exaustiva investida de caminhada madrugada a dentro. Neste ponto já estávamos proximos ao inicio da via, e, o dia já clareava. 
Comemos e tiramos um cochilo até as 9:30 da manhã. O Pablo começou então a guiar a primeira enfiada. O combinado é que ele guiaria todas e o Cristiano e eu iríamos como participantes conhecendo a via. Chegamos no platô da quinta enfiado por volta das 15:30. Parecíamos mais uns zumbis, meus pés latejavam de dor dentro da sapatilha. Nos demos por vencidos. Curtimos o visual, rimos bastante da nossa situação deplorável, e iniciamos a descida.

Foto nossa ainda conseguindo sorrir! Foi muito bom ter tido a oportunidade de conhecer o estilo de escalada no Baiano. Eu nem sequer tinha um capacete de escalada na época, estava escalando com um capacete de skate emprestado. 
Chegando na base comemos e apagamos. Acordamos por volta das 3 da madrugada, e, ansiosos por ir embora iniciamos logo a trilha de volta. Para descer as pirambeiras eu nem tinha forças pra segurar as pernas, eu sentava e me deixava escorregar e capotar até o fim das pirambeiras. Eu capotaria de todo jeito tentando descer mesmo.. No vim da trilha acabou que minha calça nao tinha mais a parte de trás. Estava presa pela cintura e rasgada até os joelhos.

Foto de nosso retorno do espanco total. 3 bagaços
Esta primeira ida no Baiano tinha sido a maior aventura da minha vida com certeza! Foi totalmente escruciante. Ficamos totalmente acabados. Lembro ainda com detalhes das sensações fortes de todos aqueles perrengues. Até hoje quando me encontro com o Cristiano e o Pablo a gente acaba lembrando desse episódio cômico, trágico e tão enriquecedor para nós. Uma coisa ficou certa pra mim, eu iria voltar lá com mais experiência depois pra dar o troco no Baiano.

E assim eu o fiz em julho de 2015... Fui com um time de 3 outros experientes escaladores. Estávamos fortemente armados e motivados, porém, choveu durante todo o fim de semana e ficamos igual pinto molhado escondido dois dias de baixo de um bloquinho de pedra aguardando a chuva passar... e não passou.


Bortolous, Tigrão e eu (guido tirando a foto). Com a cara de emburrados, no pé da rocha durante um breve momento de estiagem da chuva. Pdera encharcada.

3 - Preparação para a 3a investida ao Baiano

Logo em outubro de 2015, 3 meses após minha segunda investida no baiano, começou a dar aquela vontade de novo de fazer uma montanha. Dei logo ideia no meu parceiro tigrão para ver se ele teria interesse, ele é claro topou na hora. Chamei também a Tatá - não sabia se ela teria interesse em algo do tipo. Ela havia apenas a experiência do pão de açucar, o qual fizemos juntos. Mas, como ela ama um desafio, nem pensou duas vezes também e animou na hora.

A princípio nem iríamos para o Baiano, mas daí os planos mudaram pela força do destino e de repente estávamos lá: Tigrão, Carol e Minion / Tata e eu, iniciando a famosa trilha do Baiano numa noite de sexta feira, dia 2 de outubro de 2015. 

Rompemos bem pelo caminho. Hoje há cordas fixas nas partes mais íngremes da trilha, as quais ajudam bastante. Mesmo assim é uma trilha nível Very Fucking Hard. Fizemos a trilha num tempo muito bom, 2 hora e meia. Comemos um pouco e lá pelas 1:30 da manhã já estávamos dormindo.

No dia seguinte faríamos todos a via obra do acaso, subindo em duas cordadas independentes.



4 - A Escalada

Sol nascendo no ponto de bivaque.

No sábado já comecei a acordar lá pelas 5hrs. Dei uma enrolada até o relógio despertar as 5:30h e já pulei do saco de dormir chamando por todo mundo: Bora escalar galera!

Tomamos um bom café da manhã, organizamos as mochilas de ataque com os equipos: headlamp, água, lanches, corta vento e toda aquela tralha da escalada. Lá pelas 6:30h seguimos em direção a base da via. 
Tamires Vargas seguindo pela trilha, já próxima a base da via Obra do Acaso. Toda essa floresta que se vê atrás dela, até o vilarejo ao fundo, é percorrida a noite. São cerca de 2,5 a 3 horas num ritmo bom, quando não se erra o caminho Dormimos num ponto cerca de 40min de caminhada até esse ponto.
Depois de cerca de uma hora de caminhada bastante íngreme chegamos à base. Nos organizamos e lá pelas 8:00-8:30h o Tigrão iniciou a primeira enfiada. Como participantes na cordada dele estavam a Carol e o Miniohm. A Tamires e eu compúnhamos uma cordada independente logo atrás, fomos revesando a ponta da corda a cada parada.

Vista da base da via Obra do Acaso. Um mundo velho de Quartzito pra escalar até perder de vista. O último ponto que pode ser visto por essa foto não é sequer o cume, se não me engano é a 9 enfiada, conhecida como a enfiada do "Muro".
Após o primeiro grupo chegar na parada eu iniciei guiando os primeiros 55mts. Uma enfiada com um crux bem protegido logo após a segunda chapa, a parede fica bem vertical e o posicionamento não é nem um pouco óbivio, com agarras de mao bem pequenas, menos de uma falange. Bem interessante esse primeiro crux. Depois vem um esticão, nada difícil se comparado ao que a via aguardava mais a frente.

Os próximos 55mts foram guiados pela Tata. Esta era uma enfiada bastante exposta; com apenas 2 grampos, mas também apresentava um nível inferior de exigência técnica, se comparado ao restante da via.

Tamires Vargas guiando a 2a enfiada da via Obra do Acaso. Apenas uma costura ali perdida no meio da corda.. A grande parte da escalada é realmente com a inclinação positiva, mas em muitos momentos as agarras de pé e de mão desaparecem.. e a costura está laaa em baixo.
Na terceira enfiada já era o lance do crux de 7c, o qual é possível fazer em artificial A0/1, utilizando o furo de cliff entre a primeira e a segunda chapa (tem um video bom no youtube pra quem quiser visualizar onde é exatamente o furo de cliff https://www.youtube.com/watch?v=QwRzrN1vMTU ). Na sequencia desse crux já há uma passagem bem técnica e complicada. Lembro de terminar de fazer esse lance, ficando a uns 3-4mts da chapa e pensar assim (ufa, passei desse.. agora é só costurar e ficar de boa, levei a mão no rack pra pegar uma costura, e quando dei por mim, eu ainda estava a uns 3-4mts do proximo grampo. Aos poucos o Baiano ia sempre te surpreendendo, com lances tecnicos bem diferentes um do outro e uma sensação de exposição que te obriga a manter a calma de um jeito ou de outro.

A quarta enfiada seguiu o ritmo. Um longuíssimo esticão, o qual permite diferentes opções de caminho pela rocha. Pés delicados e poucas agarras de mão.

Gilberto Silva vindo pela 4a enfiada da via Obra do Acaso

A quinta enfiada, guiada por mim, era a que me dava mais preocupação. Eu me lembrava da falta de agarras total do lance antes de chegar na parada. Eu havia passado por aquele lance cerca de 4 anos antes e ainda assim essa memória era bem vívida. Além disto, o Tigrão já havia caido neste lance, o que abalava bem meu psicológico. 
Os lances ao longo desta 5a enfiada são bem interessantes há um crux de 5º/6º numa laca, o qual eu preferi ir direto do grampo para as agarras boas da laca, enquanto o pessoal optou por ir pela direta liseba e depois fazer um travessia desajeitada. Para chegar no top é realmente exposto pra caramba! O ideal é seguir a linha mais natural da rocha a qual faz uma curva mais a esquerda, apesar da vontade de ir diretamente para os grampos da parada. O lance realmente é mais fácil fazendo uma travessia para a esquerda dos grampos e depois subindo até eles numa diagonal para a direita. Nesse ponto o pessoal da cordada acima me ajudou bastante, eu já estava há uns 3 metros deles, então pedi pra lançarem um pedaço de corda fixa.
Nesta parada há um plato confortável. Uma boa opção para comer alguma coisa e até relaxar um pouco. Demos uma parada duma meia hora no mínimo. E tomamos mais sol na mulera sem dó.

A face do baiano é virada praticamente para o leste. O sol incide desde o momento que nasce até aproximadamente 14-15hrs da tarde. (varia é claro de época pra época. Estávamos em outrubro).

O sol se mostrava relativamente amigo. O calor era muito, porém, podia ser muito pior. Em poucos momentos tivemos incidência totalmente direta do sol. Na maior parte do tempo havia uma camada bem rala de nuvens, e, de vez em quando, até uma nuvem mais espessa proporcionava uma sombra de verdade. A desidratação era meu maior medo desde o início. Se não fosse essas nuvens amigas certamente teríamos que abortar a missão.

Ao longo destas primeiras enfiadas fomos entendendo bem o estilo de escalada no Baiano. O enorme maciço de quartzito se mostrava quase sempre levemente positivo, as vezes mais.. outras vezes bem menos. O padrão de agarras se mostra constante: pés muito delicados e pequenos regletes de mão. A escalada se concentra num bom trabalho de pés e na manutenção da calma. Toda enfiada, até a 8 ou 10 guarda sempre no mínimo alguns metros mais desafiadores.. certas vezes em esticões longos. Mas se está na montanha, é pra ter emoção!

Seguimos então pela 6a enfiada. A Tata e eu invertemos a ordem e eu voltei do descanso guiando novamente. Esta é uma enfiada muito delicada, logo a saída já é dificil e entre a 4 e a 5 proteção há um crux de 6o grau, o qual pode ser transposto utilizando um furo de cliff proximo a 4 chapa. O tigrão já havia deixado o estribo na 5 chapa então eu não tive o trabalho de procurar pelo furo (e olha que eu procurei por curiosidade e não achei, ainda bem que o estribo já estava lá! Mais uma bela ajuda da cordada guiada pelo Tigrão).

Cordada composta pela Carol Minion e Tigrão. Seguindo pela 6a enfiada

A 7a e 8 enfiada seguem o rítimo dos esticões incríveis onde a cada subida de pé é uma vitória. Em vários momentos você se encontra num dilema tremendo: Será que esse pé minusculo aqui não vai escapar? Será que eu confio nessa ruguinha áspera aqui da rocha, mesmo a última chapa estando 4-5 metros abaixo? Vou o não vou.. voo ou não voo... E aí as horas vão passando... somando a isto os trâmites burocráticos dos procedimentos normais de escalada em grandes paredes e do volume grande de pessoas no nosso grupo chegamos ao final da 8a enfiada por volta das 16hrs. Ainda faltavam 5. Isso mesmo, 5. E a ideia de desistir nem sequer existia em nossas cabeças, hora nenhuma chegou sequer a ser cogitada. E então bora pra cima que a investida estava incrível! muitas emoções e aprendizados. E a sensação do cume do Baiano estar chegando para mim era totalmente nova, e parecia difícil de acreditar. Em fim o Baiano iria se render a minha insistência.. mas eu não queria contar vitória antes da hora.


Tamires, na parada apos a 6a enfiada

Minion guiando a 7a enfiada! Vários lances bem técnicos e expostos nesta parte.
A Tata guiou essa enfiada na sequencia. Mandou bem pra caramba!

Tata e eu, na parada da 8a enfiada

A Tamires guiou a 9a enfiada. A partir desta, a característica da escalada muda bastante. Esta parte da via é bem particular. Uma fenda de agarrões, mas não só agarrões é claro. Totalmente diferente do restante da via.

Eu, na parada apos a  9a enfiada

A 10a enfiada é muito exposta. 2 grampos apenas. Utilizar friends ajuda muito, principalmente para quem está indo pela primeira vez, como foi o meu caso. Os lances não são difíceis, mas a visualização não é obvia e são fendas onde deve-se usar lances de oposição em agarras de mão que muitas vezes não te passam aquela segurança desejada. Uma vaca ali não seria nem um pouco agradável. Na verdade é dificil encontrar no baiano um lugar bom pra vacar.

As três últimas enfiadas já são bem mais tranquilas. Não há proteção alguma, somente os grampos das paradas. Já estava prestes a escurecer. Optamos então pelo Tigrão ir guiando com a corda dupla e dividimos os outros quatro integrantes em duas duplas (Miniohm e Carol, Tata e eu). O primeiro de cada dupla se encordou na metade de uma das cordas e o outro no final. Subimos todos juntos numa confusão danada, loucos pra atingir o famigerado CUME.

Carol seguindo pelas ultimas enfiadas

Chegamos ao cume as 19hrs. Infelizmente já estava escuro e não foi possível ter uma vista clara da paisagem. A sensação era aquela confusão de satisfação, sede, cansaço, fome e apreensão com relação ao rapel de 650 mts, no escuro, e com chance da corda agarrar.  Curtimos bem o cume, assinamos o livro de cume, ouvimos a história contada pelo Tigrão, a respeito da garrafa de matecouro de 1967, a qual foi deixada no Cume do Baiano com um bilhete do CEB (Clube excursionista de Belo Horizonte) o qual chegou caminhando por de trás do maciço.

Cume! Lata do livro de cume e a garrafinha do CEB de 1967.

Ficamos cerca de uma hora no Cume e iniciamos o rapel por volta das 20hrs. Não sabíamos exatamente ainda como seria a melhor logística para isto. Logo nos preparamos para o pior caso, o qual seria: descermos os 5, um de cada vez, tendo que esperar o último a chegar pra iniciarmo o rapel subsequente.
Tínhamos 3 cordas de 60 metros e logo nos primeiros rapéis vimos que a melhor logística era: eu fixava uma corda e ia abrindo o rapel, montava a parada e a Tata vinha logo em seguida. O tigrão e a Carol esperavam o Miohm chegar, puxavam as 2 cordas unidas do rapel de cima, preparavam e rapelavam em A trazendo a terceira corda para eu fixar e iniciar o procedimento novamente.

O rapel foi mais uma grande lição do Baiano. Já estávamos no cume, o qual era nosso objetivo, porém ainda tínhamos um longo árduo e monótono caminho até chegar ao nosso bivaque para poder beber água, comer e dormir. Passada a euforia de concluir a escalada, o que nos restava era aceitar a situação e executar todos os procedimentos com eficiência e atenção. Reclamar só tornaria a situação pior. Dava vontade de repetir inúmeras vezes que estava morrendo de sede ou o quanto eu queria estar deitado no bivaque, mas ao invés disto, me coloquei num estado de "stand by", apenas executava as tarefas que eu tinha que fazer no rapel, me solterava na parada, apagava a headlamp e ficava meio que meditando, enquanto esperava pelo Tigrão e pela Carol trazendo a corda para eu fixar novamente e descer mais um lance de 60mts.


Foto que representa bem o clima durante o Rapel! Tata com olhos cansados. Eu em estado de meditação. Ansiosos por pisar no chão.
A situação melhorou bem quando a lua surgiu e faltavam apenas 4 rapéis até a base. Desse momento em diante a Tata e eu fomos tomados pelo otimismo e pela sensação de alegria e alívio por estar próximo do fim de uma empreitada como nunca tivemos antes na vida.

Cheguei até a base e comemorei até mais do que quando eu cheguei no cume eu acho. Demoramos 5hrs no total do rapel, isto mesmo 5 longas horas. 

A caminhada até o bivaque se mostrou eterna, até por que nesse momento eu parei de controlar minha ansiedade e deixei que ela tomasse conta, afinal, eu já havia segurado esse sentimento ao longo da empreitada inteira e isso é de certa forma desgastante. Já tranquilo com a sensação das etapas mais complexas terem sido vencidas. Faltava somente a trilha até o carro, mas isso era um assunto para o próximo dia.

As tarefas antes de dormir foram apenas beber 2 litros de água igual maluco e comer uma janta reforçada. Fomos dormir por volta das 3:30. Foram 22 horas de emoções intensas.. inesquecíveis. Isso fora a dormida zela de apenas 4 horas do dia anterior.. viajando direto do serviço... montanha é coisa de maluco mesmo. Essa foi uma das principais lições do Baiano: Montanha é coisa de maluco.

No domingo já acordamos cedo. 6:30 já estavamos de pé. O sol já nasce batendo direto no bivaque.. o calor era insuportavel, e eu já acordei um pouco desidratado. Eu estava numa fraqueza tremenda, me levantei com dificuldade e tomei logo muita água, daí tomamos café e eu melhorei rapidamente.

Descemos a trilha sem problema algum. Em cerca de 2 horas e pouco já estávamos na caixa dagua do início da trilha tomando um banho pra refrescar.


Tamires Vargas e eu, após nossa empreitada de sucesso pela via Obra do Acaso - Serra do caraça MG
Daí então marcava o fim de uma empreitada de sucesso no Baiano. Uma aventura memorável! Não aconteceu absolutamente nenhum imprevisto ou infortúnio. Fico muito grato por isto. Demoramos muito ao longo da escalada e foi bastante desgastante. Mas foi uma experiencia totalmente enriquecedora, a qual fico muito feliz por ter feito junto da Tata, minha companheira de vida!


Autor do Relato:Gilberto Martins Assunção Valadares da Silva





quinta-feira, 18 de junho de 2015

Via quadrado magico - Serra do Cambotas - MG

Repetição da Via quadrado Mágico - Serra do Cambota, Caeté - MG


Apresentação do Local


A serra do cambotas fica próximo ao município de Barão de Cocais. O maciço fica dentro da propriedade do Senhor Itamar: O Canela de Ema Adventure Park (http://canelaema.com.br/contato/).

O Canela de Ema oferece várias opções de atividades outdoor e permite o livre acesso dos escaladores ao belo maciço de quartizito apresentado na foto abaixo.
Sede do Canela de Ema: Casa do proprietário a frente, restaurante acima e o incrível maciço de Quartizito do cambotas ao fundo.
A trilha entre a sede e a base das vias dura cerca de 1 hora. É um caminho bem demarcado e tranquilo até o costão. Os últimos 500 metros são de subida forte por entre pedras.

Hoje o pico conta com cerca de 60 vias, entre tradicionais e esportivas. Há opções do 4º ao 10º grau. Vários setimos, oitavos etc bem longos. Rocha de ótima qualidade, bastante aderente mesmo em dias úmidos. Abaixo é apresentado o croqui com as principais vias do local.

Principais vias do Cambotas

Principais vias do cambotas

Como chegar a Serra do Cambotas


Para chegar até o local, partindo de Belo Horizonte, as duas opções mais utilizadas são:

  • Passando por Sabará-Caeté: Total = 80km sendo 24km de terra.
  • Por Caeté-Barão de Cocais: Total = 115km sendo 8km de terra


Mapa de como chegar ao Canela de Ema Adventure Park: Ponto de partida para acessar o maciço da serra do Cambotas.

Regras do Local

Sempre que desejar ir ao Cambotas, deve se chegar ao local durante o dia. A porteira fica trancada no período noturno e não convém incomodar os proprietários e funcionários fora do horário de funcionamento normal. É possível chegar a noite, desde que seja previamente combinado com o proprietário (veja opções de contato pelo site http://canelaema.com.br/contato/).
O estacionamento é cobrado por carro (aproximadamente R$25,00). As opções de pernoite mais utilizada pelos escaladores é o bivaque ou barraca. Há três pontos de acampamento mais comuns:

  1. Logo no inicio da trilha, à direita, na beira do riacho (vantagem: local agradável, proximo ao estacionamento e à fonte de agua limpa. Desvantagem: distante cerca de 1h da pedra.)
  2. Pedras caídas: É uma área aberta, próximo a blocos enormes de pedras, logo antes do costão de aproximação do maciço. (vantagem: relativamente próximo a pedra (cerca de 15 minutos), não se sobe o costão com a mochila tão pesada. Desvantegem: é necessário caminhar 75% da trilha com a mochila pesada)
  3. base da pedra: A base da pedra oferece várias opções para bivaque e alguns pontos para armar barraca. Como o maciço é negativo, não chove na base, sendo possível bivacar mesmo em tempos de chuva. (vantagens: proximidade das vias, só se sobe o costão uma vez. Desvantagens: deve-se subir toda a trilha com a bagagem completa. Não há bons pontos de água o ano inteiro.
O Canela de Ema também oferece opções de hospedagem, além de refeições. Estas opções devem ser acertadas diretamente com o Senhor Itamar.

Relato da escalada da via Quadrado Mágico


No fim e semana do dia 12 de abril de 2015, Gustavo Vianna (Tigrão) e eu combinamos de fazer a repetição da via Quadrado Mágico, única via finalizada que leva ao cume do polegar no Cambotas (polegar é torre a direita do cume principal).

A via é composta por 2 enfiadas, sendo a primeira fixa (7c - aprox. 50 metros ou mais) e a segunda um 6º misto (movel/fixo - aprox. 30 metros).

Para acessar a via, escolhemos fazer a primeira enfiada da via Aresta Eletrizante, a qual é um 7b E3 misto (movel/fixo) de 40 metros. Desta forma, nossa empreitada ficou sendo:
  • 1 enfiada: 7b misto - E3 - 40 metros
  • 2 enfiada: 7c/8a fixo - 50 metros
  • 3 enfiada: 6 misto - E2 - 30 metros
Material Necessário:
  • Jogo de camalot do 0,3 ao 4
  • 18 costuras
  • 2 paradas completas
  • Fitas de diversos tamanhos
  • Recomendado um jogo de nuts para a primeira enfiada

Linha da via escalada: 1ª enfiada da Aresta Eletrizante e Via Quadrado Mágico, levando ao cume do Polegar

1ª enfiada


Conforme dito na seção anterior, acessamos a via Quadrado Mágico utilizando a primeira enfiada da Aresta Eletrizante. O tigrão foi quem guiou esta parte enquanto eu fui limpando para conhecer.

Gustavo Vianna (Tigrão) colocando a primeira proteção da primeira enfiada da via Aresta Eletrizante. Gilberto Silva na segurança. (Bem Alto para uma primeira proteção correto?!?)

A primeira proteção é bastante alta, cerca de 10 metros. É possível colocar duas peças bem encaixadas e então seguir para o crux, a linha da via nesta parte não é óbvia, após encaixar as peças, deve-se fazer uma travessia para a direita, descendo um pouco pela fenda. Os pés são num matagal conforme dá pra ver na foto, após esta pequena travessia, inciasse alguns lances de 7b em agarras médias. Na verdade, minha sensação foi de que o crux da via não é muito bem definido, há algumas outras passagens de 7b, principalmente no negativo final, mas são agarras boas.

Gustavo Vianna colocando a terceira proteção da primeira enfiada da via aresta eletrizante. 

Achei esta primeira enfiada complicada, e fiquei aliviado de ter ido como participante. Me lembro de por algumas vezes estar blocado na parte negativa tentando retirar peças enquanto eu pensava: " se está ruim pra retirar, imagina pra colocar". Mas, confesso que pode ter sido vacilo meu, de mal posicionamento ou pura falta de técnica mesmo kkkk. Preciso voltar lá pra avaliar melhor esta enfiada incrível.


Gustavo Vianna seguindo guiando na primeira enfiada da via Aresta Eletrizante

Gustavo Vianna proximo do final da primeira enfiada da via Aresta Eletrizante. Na parte superior da foto, é possível ver a aresta mais clássica e famosa do Cambotas! 
O número de proteções móveis pode variar de 6 a 12 aproximadamente.. dependendo do equipamento, do grau de conhecimento da via etc... Há cerca de 3 proteções fixas. O grau de exposição não fica menor que E3 independente do caso.

Terminamos a primeira enfiada logo após virar este negativo de agarras boas apresentado na última foto, seguindo sempre a linha da fenda para a esquerda. Neste platô fizemos uma parada com fita numa árvore sólida localizada acima da parada dupla da via directa na aresta (há inclusive um corda fixa entre esta parada dupla e a árvore a qual utilizamos).

Alcançado o platô, o próximo passo foi ir andando para a direita, cerca de 50 metros, até alcançar o jardim dos sonhadores, ali inicia-se a via quadrado mágico. Entre a parada na árvore e o primeiro grampo da via quadrado mágico estão as duas proteções utilizadas para rapelar até a base na volta.

1ª Enfiada da Via Quadrado Mágico


Esta enfiada é toda fixa. São necessárias 16 custuras. Recomenda-se utilizar fitas longas (60/40cm) para evitar o atrito pois a via é longa e vai fazendo uma curva suave para a esquerda.

Esta é a melhor enfiada da via. Um 7c incrível que tive o prazer de guiar. O crux acho que pode ser considerado o último lance, mas no geral é bem diluída, o primeiro lance também já é bem estranho, pra iniciar a via tem que dar uma bancada bem "desequilibrenta" pra subir na torre do polegar, mas nada de outro mundo não.. alguns lances mais exigentes seguidos de agarras boas. Esticões razoáveis, em geral bem protegidos. Há vários lances técnicos, na aresta abaolada, além uma boa sensação de exposição pra animar o caboco. O melhor é o visual sem igual da via Aresta Eletrizante logo ao lado.
Gilberto Silva (pequeno pixel branco indicado pelo risco vermelho) chegando próximo ao final da primeira enfiada da via quadrado mágico. 


Cordada Gilberto Silva e Gustavo Vianna na primeira enfiada da via quadrado mágico.

Gustavo Vianna subindo limpando a primeira enfiada da via quadrado mágico. foto tirada na parada da primeira enfiada.

  2ª Enfiada da via Quadrado Mágico e CUME!


A segunda enfiada da via, nossa terceira e última do dia, era um sexto grau com cerca de 3 proteções fixas e com possibilidade de 3 a 6 proteções móveis. O lance mais complicado eu diria que é logo a saída da parada, pois é meio sujo de mato e terra, só tomar cuidado que não tem erro. No mais é ir curtindo o visual e a sensação de estar prestes a alcançar o cume do Polegar do Cambotas!

Gustavo Vianna guiando a última enfiada da via Quadrado Mágico. 6 grau misto. Curtição!!
Chegando ao cume, deixamos um novo caderno de cume, assinamos, curtimos o visual, tiramos um self pra registro e depois foi rapelar até a base.

Self no cume da via quadrado mágico. Cume do Polegar na Serra do Cambotas.
Levamos, na empreitada como um todo, cerca de 3 horas ou mais eu acredito. Foi uma escalada bem prazerosa e meu primeiro cume no Cambotas. Fiquei feliz pra caramba e agradeço a parceria do tigrão!


Autor do relato: Gilberto Martins Assunção Valadares da Silva